Crônica: Alma primitiva

 

Por Chiquinho Corrêa*

Numa pane justificada, meu fusquinha, nos alto dos seus quarenta anos me deixou na mão em plena rodovia. Esperei por três quarto de hora pelo socorro; nesse intervalo pude observar que indivíduos paramentados empunhavam uma roçadeira, dando vazão ao seu labor diário. Pude observar que eram em número significativo, e todos manuseavam aquela ferramenta com destreza, como se fora seu fenótipo estendido. E ali permaneciam num giro de cento e oitenta graus, iam e vinham incessantemente, por horas, dias, talvez anos. Creio que seja muito pouco para quem traz em seu conteúdo existencial a possibilidade do pensar, do existir, do coexistir. Mas, calados, absorto em sua labuta, creio não ter tempo para conjecturas. Talvez o que o embale seja a cervejinha e o futebol aos finais de semana. Creio que seja muito pouco. Observando-os me veio à frase surrada de Gilberto Freyre, no livro Casa Grande & $enzala: na política o poder e seu primitivismo, na economia o feudalismo escravocrata, na religião o sincrético misticismo. Por essa frase creio que consiga chegar a uma resposta para esse vai e vem constante da roçadeira e do seu condutor. Mas, talvez os números sejam mais consistentes, quando se fala em Brasil; trata-se do Relatório sobre o Capital Humano, um estudo que o Fórum Econômico Mundial vem preparando desde 2013, para medir o êxito dos países em adestrar, desenvolver e preparar (para a vida) a sua gente – essa que o Fórum chama de “o grande ativo” de cada nação. O Brasil ficou em humilhante 78º lugar entre 124 países, por si só, já seria um vexame suficiente, mas, em se tratando de Brasil, tudo que é muito ruim sempre pode piorar. Nesse caso, há pelo menos três itens que tornam o cenário ainda mais devastador. A saber: 1- O que empurrou o Brasil ao fundo do ranking foi o desempenho no preparo de menores de 15 anos, idade crucial. Nesse capítulo, a posição brasileira é de chorar: 91º lugar. Pesou em especial o que o relatório de “taxa de sobrevivência em educação básica”, ou seja, a capacidade de o aluno sair “vivo” (bem preparado) do ciclo básico. Como se sabe, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, houve um avanço considerável na universalização do ensino básico, dado obviamente positivo. Mas o novo relatório mostra que é também insuficiente. Não basta pôr as crianças nas escolas; é preciso que “sobrevivam” nela. 2- Olhando-se apenas a posição no ranking dos países latino-americanos e do Caribe, aí dá vontade de se matricular no clube dos portadores de complexo de vira-lata. O Brasil, sétima ou oitava economia do mundo, dependendo do momento, é apenas o 13º pais latino-americano/caribenho em matéria de tratamento digno de seu capital humano. Perde para o Chile (45º), Uruguai (47º), Argentina (48º), Panamá (49º), Costa Rica (53º), México (58º), Peru (61º), Colômbia (62º), El Salvador (70º), Bolívia (73º), Paraguai (75º) e Barbados (77º). Ficar atrás dos três primeiros já é ruim, mas até compreensível, na medida em que são países que historicamente tiveram nível educacional razoavelmente elevado. Mas perder até para tão pobres como El Salvador, Bolívia e Paraguai é uma obscenidade. 3 – no âmbito dos Brics, que são só cinco, o Brasil fica exatamente no meio: perde de Rússia e China, ganha da Índia e África do Sul. Nesse grupo, um detalhe importante: por mais que a China seja um grande êxito de público e de critica nos últimos muitos anos, sua posição no ranking de capital humano é ruim (64º posto, não muito à frente do 78º do Brasil). Parece, pois, evidente que crescimento espetacular, por si só, não é suficiente para preparar o capital humano para os desafios do mundo moderno. É uma impressão reforçada pelo fato de que os países que enfrentam uma crise econômico-social terrível (Grécia, 40º lugar, e Espanha, 41º) tratam seu capital humano melhor do que a China e melhor que qualquer um dos países latino-americanos, nos quais ou não houve crise ou ela foi mais suave. Alguém ainda acha que o ajuste fiscal do Joaquim Levy basta para mexer com esse vexame?       

* o autor é mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAr), especialista em Manejo de Solo pela Universidade de São Paulo (USP) e produtor Agropecuário.