Crônica: Perda de Referência

 

Por Chiquinho Corrêa*

No entorno de uma cidade distante havia uma mata; essa mata era o refúgio de milhares de seres; entre eles sobressaia um moleque travesso, que a memória coletiva denomina de Saci Pererê: um ser que vive nas matas e extremamente misterioso; negro, pequeno e possui apenas uma perna; usa um capuz vermelho e um cachimbo; não possui pelos no corpo; não possui órgãos para urinar ou defecar; só tem três dedos em cada mão; possui as mãos perfuradas; adora assoviar e ficar invisível; vive com os joelhos machucados, resultado das travessuras; tem o domínio dos insetos que atormentam o homem: mosquitos, pernilongos, pulgas, etc.; fuma em um pito e solta fumaça pelos olhos; adora fazer travessuras; pode, em momentos de bom humor ajudar a encontrar coisas perdidas; gira em torno de si feito um pião e provoca redemoinhos; pode ser malvado e perigoso; adora encantar as criancinhas, fazê-las perder-se na mata. Vivia assim o saci, perambulando e fazendo as suas estripulias e brincadeiras pela floresta. Certo dia, um homem da cidade resolveu fazer uma visita naquela floresta; pode observar aquela criatura desajeitada em meio aos outros seres. Sua mente perversa viu naquela criatura uma chance real de ganhar dinheiro com suas peraltices e espertezas. Capturou a criaturinha e a levou para a cidade, e fez daquele ser uma atração especial. E todos da cidade ficaram maravilhados com aquela criatura de uma perna só, engraçado e brincalhão. Essa criatura começou a pegar gosto pelos costumes do homem da cidade. Com o passar do tempo, sua visão de mundo foi mudando. A sua realidade mudara desde a saída da floresta. Conquistou bens e com eles pode mudar a sua vida. Usou todo o aparato tecnológico para melhorar a sua postura: mandou fazer uma perna mecânica de última geração, branqueou a sua pele, enxertou os dedos que faltavam em suas mãos; tornou-se um novo ser; belo aos olhos da nova realidade (pequena e fugaz). Passam-se os anos, aquele universo deveras prazeroso foi se transformando, já não continha os sentimentos de outrora, quando habitava a floresta e convivia com criaturas a sua semelhança e vivacidade existencial. Começou a sentir falta de seus amigos que deixará na floresta. Sentia-se só, e uma vontade incontida de retornar aquela mata que o acolhera por muitos anos. Certa manha tomou coragem e voltou para a mata; ao adentrar a floresta sentiu-se um intruso, não mais conseguia ter a mesma sensação do passado; tentou, em vão, dar algumas cambalhotas, mas não possuía a mesma destreza de quando tinha apenas uma perna; a perna nova e os dedos enxertados incomodavam o seu desempenho. Olhava ao seu redor e era motivo de chacota dos outros seres; outrora andava todo gabola pela mata, usando de todas as suas características para fomentar a diversão na floresta. Morreu entristecido, por não poder mais compartilhar daquele ambiente que antes de conhecer o homem era para ele o melhor lugar do mundo.

P.S. Tu achas, caro leitor, que não deparas com criaturas como essa no seu cotidiano; engana-se, olhe ao seu redor, procure um novo rico; desvendarás assim o conteúdo da crônica acima. (Ex: ouvi de uma conhecida que a cônjuge de um nobre novo rico caseiro, num momento de êxtase, disse que tinha comprado uma camisa de R$ 5.000,00 para o nobre senhor).  Creio que tenha usado a camisa para ir ao show do Ari Toledo!  

* o autor é mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAr), especialista em Manejo de Solo pela Universidade de São Paulo (USP) e produtor Agropecuário.